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RELAÇÃO COM A FAMÍLIA TEM TANTA INFLUÊNCIA NA PERSONALIDADE DA CRIANÇA QUANTO SUA GENÉTICA

27 abr , 2016  

Familia444Pedro e João são irmãos gêmeos, mas foram separados logo no nascimento. Pedro foi adotado por uma família amorosa e dedicada. João, por sua vez, foi morar com pais ausentes, e que pouco interagem com o menino. Hoje, aos três anos, Pedro é uma criança segura, enquanto seu irmão João tem baixa autoestima. Mas como é possível que dois meninos nascidos da mesma gestação possam ter personalidades tão diferentes?

Em descobertas recentes, a neurociência explica que, ao contrário do que se imaginava, isso acontece porque crianças não são frutos apenas de suas cargas genéticas, mas, sim, de uma combinação entre elas e as relações que estabelecem com aqueles que as rodeiam.

“Parece uma coisa menor dizer que o amor tem importância no desenvolvimento emocional dos bebês, mas ele é fundamental”, diz Estela Renner, brasileira diretora do documentário O Começo da Vida, que entrará em cartaz nos cinemas a partir do dia 5 de maio.

Explorando o modo com que famílias de nove países se relacionam com os filhos na primeira infância, que vai do nascimento até os seis anos de idade, o filme aponta, por meio de entrevistas com especialistas de áreas como a medicina e a pedagogia, que o cérebro de uma criança nesta fase faz de 700 a 1.000 conexões por segundo.

Com isso, tudo que se estimule e ofereça aos filhos neste momento da vida será de grande utilidade na formação de sua personalidade e intelecto, além de benéfico às suas habilidades emocionais.

Os melhores brinquedos, por exemplo, não são necessariamente os mais caros das lojas, e, por isso, não há motivo para os pais se preocuparem em comprar coisas, mas, sim, criá-las junto com os filhos. De acordo com especialistas ouvidos na produção, para as crianças, a graça da brincadeira está justamente em subverter objetos em brinquedos — uma caixa vira uma nave espacial, uma vassoura, um cavalo.

Personagem do documentário, a modelo Gisele Bündchen exemplifica que, com um de seus dois filhos, ela coloca isso em prática, estimulando que ele desenvolva bonecos de seus personagens favoritos, em projetos que podem levar até uma semana — e, nos quais, é acompanhado de perto pela mãe.

A relação entre as crianças e suas mães, aliás, é abordada com profundidade. Especialistas avaliam este vínculo primeiro como uma representação de como o indivíduo verá o mundo ao longo de toda a sua vida, além de uma medida para o quanto ele poderá esperar de apoio dos outros.

Enquanto isso, o pai é visto como o bebê como alguém que mostra que existe um mundo lá fora, para além desta mãe. “É importante mostra que a participação do pai não é ajuda, é a construção de um vínculo”, opina Ana Maria Chiesa, enfermeira e obstetra da USP, especializada em saúde pública.

“Assumir responsabilidades é se fazer presente na vida do seu filho. Pai não é ‘quebra-galho’. Entender que ele está ali para ajudar a mãe é partir do pressuposto de que criar a criança é uma responsabilidade da mãe, quando ela é uma responsabilidade dos dois”.

E, para que isso aconteça e o pai crie o bebê em conjunto, é preciso que a mãe permita a “entrada” dele em sua rotina com a criança. Isso porque muitas mulheres ficam receosas, entendendo que a forma do homem cuidar do filho será uma negação da sua forma de criá-lo, apenas pelo fato de ser diferente. No entanto, de acordo com os especialistas, “ser diferente é bom”.

Na hora da birra, por exemplo, a recomendação é a de manter a calma e compreender que se trata apenas de um teste da criança. Quando o bebê ainda é muito pequeno, ele derruba as coisas no chão para verificar coisas que nos parecem simples, mas que, para ele, significam a descoberta do mundo. Ele quer ver se a cada vez que objeto cair no chão o som será o mesmo, ou se a mãe repetirá sempre a mesma expressão facial.

Já o chilique se trata, na opinião dos entrevistados, de uma queda-de-braço da criança com os pais, e na qual eles sempre perderão. É, para eles, o momento em que a criança descobre que é dona do próprio corpo.

E, embora a reação automática de pais e mães seja — além do nervosismo — se sentir ofendido pela desobediência do próprio filho, o ideal é tentar entender que eles só fazem isso porque se sentem amados pela família, e estão cientes de que não serão abandonados por conta daquele mau comportamento.

“Os primeiros anos de uma criança são como a construção da fundação de uma casa”, resume Charles Nelson, professor de pediatria da Universidade de Harvard, também entrevistado em O Começo da Vida, que levou três anos para ficar pronto — ao todo, foram 400 horas de filmagens. Além do filme em circuito comercial, a produção também vai virar série, com episódios de 45 minutos, em um canal ainda a ser definido.

“A neurociência vem trazendo cada vez mais evidências de que essa é uma fase fundamental da vida”, reforça Eduardo de Campos Queiroz, diretor presidente da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal. “Queríamos, com este filme, sensibilizar os pais e o poder público para a causa da primeira infância, mudar a percepção das famílias e dos gestores. Se tivermos essa ligação com essas crianças, as chances de elas conseguirem alcançar seu potencial aumentam”. (Fonte: R7)


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